De um livro

- Quem és tu? Eu conheço-te não conheço?





O que dizem os rumos?
As manhãs quando acordas?
O que dizem as palavras?
Ou a voz das guitarras?
Que temos nas mãos as sementes,
e que não as lançamos à terra ?!
- Calem-se as palavras!
Um passo,
Outro passo.
Já não há o acaso.
Somos filhos do fingimento
Do encontro, desencontro
E bate uma porta.
E no silêncio o estrondo
O que morre? O sentimento?
E então?
Quanto vale o silêncio?
Quanto vale a escuridão
Quanto valem as tuas mãos?
Poisar os braços sobre uma vida
Como quem estende o corpo numa mesa
Num copo
Dois copos
E falam os poetas
De coisas que ninguém entende.
E mais um passo
Outro passo
Num murmúrio de afectos.
Um passo, outro passo
E batem as pedras nas margens dos rios.



Apetecem-me as palavras. Hoje. E ontém, e amanhã, depois.
Já não se guardam, nem se escrevem ao acaso em paredes
Já não se reinventam as palavras
Escrevem-se de memória,
Adivinham-se no tempo.
Apetece-me o amanhecer para além da palavra.
Estalem-se os dedos!
Há vida!
Há um mundo real por detrás das palavras.
As palavras têm vozes.
Está lá?
Está?
Cai a ligação!
As palavras. A própria palavra de p a l a v r a ? Vem de onde? A palavra?
Deixa ver. Palavra = som ou conjunto de sons articulados com uma significação; termo; vocábulo; o dom da fala; da escrita; elocução; afirmação; ensinamento; doutrina; promessa verbal; concessão para falar.
Elocução. Gosto.
Afirmação.
Concessão?
Não!
Não é precisa a concessão da palavra.
Fico a pensar nisto.
Comparo as palavras à nudez. Usamos as palavras com que nos despimos, ou vestimos apressadamente.
Pegamos nas palavras com urgência
Como quem sacia o sentido emergente.
Se as calarmos, provocamos o silêncio.
Se as dizemos sozinhas, criamos o monólogo
O pensamento.
Se as rimarmos, criamos o verso.
Se as sentirmos, escrevemos um poema.
Tal criança que descobre a força dos seus traços
E descobrimos.
Palavrear é criar.
Tocar na palavra a medo
Devagar
Escrevemo-la
Já não tão devagar.
Descobrimos o som, o ritmo, a quietude.
E não há já o vagar para se esculpir de novo as palavras.
Não, «não nos podemos enganar sobre o sabor das palavras».
Navegamos no mar das palavras
Mas não lhes pertencemos.























