Tuesday, November 06, 2007

De um livro



«Caminho sobre um chão de tijoleira de cor branca salpicada de cinzento. Como o meu cabelo, e o cabelo da maioria das pessoas que aqui estão, embora esta manhã seja eu o único no átrio da entrada. Os outros ainda estão nos seus quartos, sozinhos, apenas acompanhados pela televisão mas, como eu, já estão acostumados a isso. Se lhe derem tempo suficiente, uma pessoa habitua-se a tudo.


Oiço sons abafados de choro à distância, e sei exactamente de quem são. As enfermeiras vêem-me então, sorrimos uns para os outros e trocamos cumprimentos. São minhas amigas e conversamos muitas vezes, mas tenho a certeza de que ficam a magicar a meu respeito. "lá vai ele outra vez", escuto, "espero que corra bem". Um minuto mais tarde chego ao quarto. A porta mantém-se aberta para mim, como acontece usualmente. Há mais duas outras pessoas lá dentro, e também me sorriem quando entro. "Bom dia", dizem. Falamos por cima do som do choro durante um minuto ou mais. Parecem não dar por ele. Tornaram-se-lhe insensíveis. Também eu estou a tornar-me insensível, mas por outros motivos.


Depois sento-me na cadeira que acabou por adquirir a minha forma. Já estão a acabar. Ela já tem as roupas vestidas mas continua o choro. Tornar-se-á mais mansinho depois de elas partirem, eu sei. A excitação da manhã perturba-a sempre, e hoje não é excepção. Por fim, a cortina é aberta e elas saem. Sento-me só por um segundo e fico a observá-la mas ela não me devolve o olhar. Compreendo. Não sabe quem sou. Para ela sou um estranho. De óculos postos, tiro do bolso uma lente de aumentar. Poiso-a sobre a mesa por um instante enquanto abro o livro de apontamentos. Há sempre um momento, imediatamente antes de começar a ler a história, em que a mente se me perturba, e pergunto-me, "irá acontecer hoje?" É a possibilidade que me faz continuar e não a certeza.


Ficamos sentados em silêncio a observar o mundo à nossa volta. Levou-nos uma vida a aprender isto. Parece que só os velhos são capazes de ficar sentados um ao lado do outro sem dizerem nada e, ainda assim, satisfeitos. Os jovens, activos e impacientes, têm sempre que quebrar o silêncio. É um desperdício, porque o silêncio é puro. O silêncio é sagrado. Une as pessoas porque só os que se dão bem uns com os outros se podem sentar juntos sem falar. É este o grande paradoxo.


Todas as manhãs ele lê para ela, de um caderno desbotado pelo tempo.»

De vez em quando ela interrompe-o.
- Quem és tu? Eu conheço-te não conheço?

Friday, September 21, 2007



- Qual de nós é mais frágil?
Frágil no sentido de abrir, com facilidade,
o peito, mostrar a nossa alma por dentro ....

Tuesday, September 11, 2007



Se um dia eu voar
hei-de contar-te o que vi
hei-de falar-te dos porquês
de tudo o que eu senti.


Se um dia eu voar
hei-de falar-te das nuvens,
dos mergulhos no mar
das vertigens do céu
das correntes das marés.


Se um dia,
Se um dia eu voar
falo-te do sangue que é quente
dos lugares onde vivi
dos Domingos e das gentes
das muralhas e dos barcos
dos relógios fora de horas
das casas onde cresci.


Se um dia eu voar
e a minha voz chegar a ti
hei-de dizer-te do preço da liberdade
do tom único da verdade.




Porque um dia,
um dia eu vou

voar.

Sunday, September 09, 2007




«Dá-se um passo e está-se em terra de ninguém»

Monday, July 30, 2007




Não sei, não sei. Não descobri ainda a ponte certa para o cais. A brisa matinal e os gritos secos das gaivotas dizem-me que estou perto. Oiço os murmúrios dos pescadores, das mulheres, uma das embarcações não voltou. É a minha. Naufraguei. Naufraguei e não lhes aceno, não lhes grito, desligo o rádio, recolho as velas e lanço a âncora borda fora. Sufoco entre o ar que não respiro e as palavra que teimo dentro de mim. Estou a dois passos. À distância de um estender de mãos. Não sei, não sei quanto tempo sobrevivo do outro lado do mar. E no entanto guardo religiosamente o foguete luminoso, hei-de lançá-lo ao céu quando os cascos mergulharem dentro de água.

Thursday, July 26, 2007




Quem dera que irrompesses o silêncio
Este silêncio lento
Pesado
do esbracejar das folhas
dos troncos
das raízes presas à terra
Do fogo
Das mãos
Do tempo.


Num tempo antigo ouvias o vento norte
Os segredos mais secretos
Trazias o sorriso aberto
no rosto.
A ternura e a bravura.
O que escutas agora
Quando já não há nada do lado da memória?


Talvez a noite sobreviva ao sol
Talvez a tarde nos queime a pele
E as dunas nos guardem do vento.

Friday, June 22, 2007



As palavras
são como folhas de Outono.

Friday, May 25, 2007


E eu que quero ficar,
passo a vida a partir.

Thursday, May 24, 2007

E então?



O que dizem os rumos?
As manhãs quando acordas?
O que dizem as palavras?
Ou a voz das guitarras?
Que temos nas mãos as sementes,
e que não as lançamos à terra ?!
- Calem-se as palavras!



Um passo,
Outro passo.
Já não há o acaso.
Somos filhos do fingimento
Do encontro, desencontro
E bate uma porta.
E no silêncio o estrondo
O que morre? O sentimento?



E então?
Quanto vale o silêncio?
Quanto vale a escuridão
Quanto valem as tuas mãos?



Poisar os braços sobre uma vida
Como quem estende o corpo numa mesa
Num copo
Dois copos
E falam os poetas
De coisas que ninguém entende.
E mais um passo
Outro passo
Num murmúrio de afectos.
Um passo, outro passo
E batem as pedras nas margens dos rios
.

Monday, May 21, 2007

Paz


É Domingo.
A chuva bate nas janelas.
Levanto-me. Sinto os pés frios no chão.
De cara colada ao vidro
De coração na mão.
É cedo, tão cedo.
Sinto agora o frio na cara.
O frio do chão.
O frio do corpo.
Ouve-se o vento.
As árvores dançam.
As gotas escorrem pelo lado de fora do vidro
E eu,
Eu sinto a vida a escorrer-me pelo lado de dentro do corpo.



Já não me lembrava de sentir esta paz.
Quem dera poder guardá-la no peito, Eterna.

Tuesday, May 15, 2007

Todas as horas



Todas as horas são boas para renascer.

A noite está fria quando se vem ao de cima
Há estrelas no céu
A neblina.
Há o sonho
E o Azul
Tudo está certo
Incerto.
Há o vento
A palavra e a procura
O sentimento.
Há o mar
O tempo


Há o tempo,
o tempo para compor ternura.

Tuesday, November 07, 2006

Declaro a morte à Poesia




Quero que morra a Poesia.
Morre!
Morre!
Morre!


Quero ver-te renascer.
Nem que sangres
Nem que doa
Nem que chores
Ou implores
Hei-de ver-te renascer!


Irei ao fundo do oceano mais fundo,
Ao fundo mais fundo de mim
Ao chão mais longe da razão
Encontrar-te!
Cada letra
Cada palavra
Cada grito que me calaste
E hei-de ver-te renascer.


Onde estavas Poesia
quando gritei por ti?
O que fizeste tu Poesia
Nas minhas mão vazias?


Agora morre.
Hei-de ver-te renascer em mim.

Friday, November 03, 2006

Na comarca da vida




Jura dizer a verdade,
toda a verdade
e nada mais do que a verdade?



Na comarca da vida, os abutres levantam voo das árvores, ávidos de sangue, levam nas asas a sede, nas garras a fome do ódio. Sedentos da verdade, não suportam a liberdade de um céu azul.


E morrem da maneira mais fácil


pela boca!

Thursday, October 05, 2006






Éramos poetas.
Buscávamos palavras,
Tinhamos ódio dos adjectivos,
Um ódio de morte aos adjectivos.
Tentámos dizer que a mudez é um poema,
O silêncio calmo,
O mergulho uma serpente.

O mundo era um teatro,
A nós cabia representar o belo,
Se existisse.
Refizemos palavras,
Entendemos que o sentido das coisas é mutável;
O ser,
Apenas existir.
Permanecer no âmago da chuva
É receber no rosto a tempestade
Compreender a força dos sentidos.

A memória não existia
Quem soube do amor, naquele tempo?
Como odiávamos os adjectivos,
O poema seria silente e seco,
Duro como um grito solto na madrugada,
Arrebentado pela fome dos aflitos
Aprisionados, cegos, calados
Estávamos cansados, calando a madrugada.
Cansados como hoje, nesta manhã
Em que largámos amarras
E existimos, permanecemos.

Chegámos a partir.
Acho que chegámos a partir.



Poemas Noturnos de Celso Japiassu

Friday, September 01, 2006




Já te disse?
És uma parte infinita do meu mundo.

Não te disse?
Se calhar não perguntaste.

Wednesday, August 30, 2006

Ha! Sim, as palavras



Tirar a roupa perante o olhar de estranhos é sem dúvida um acto de puro despir. E despir tem arte. Ou talvez não. E escrever? Escrever perante o olhar de quem não nos conhece?

Apetecem-me as palavras. Hoje. E ontém, e amanhã, depois.
Já não se guardam, nem se escrevem ao acaso em paredes
Já não se reinventam as palavras
Escrevem-se de memória,
Adivinham-se no tempo.
Apetece-me o amanhecer para além da palavra.
Estalem-se os dedos!
Há vida!
Há um mundo real por detrás das palavras.
As palavras têm vozes.
Está lá?
Está?
Cai a ligação!

As palavras. A própria palavra de p a l a v r a ? Vem de onde? A palavra?
Deixa ver. Palavra = som ou conjunto de sons articulados com uma significação; termo; vocábulo; o dom da fala; da escrita; elocução; afirmação; ensinamento; doutrina; promessa verbal; concessão para falar.


Elocução. Gosto.
Afirmação.
Concessão?
Não!
Não é precisa a concessão da palavra.
Fico a pensar nisto.
Comparo as palavras à nudez. Usamos as palavras com que nos despimos, ou vestimos apressadamente.
Pegamos nas palavras com urgência
Como quem sacia o sentido emergente.
Se as calarmos, provocamos o silêncio.
Se as dizemos sozinhas, criamos o monólogo
O pensamento.
Se as rimarmos, criamos o verso.
Se as sentirmos, escrevemos um poema.
Tal criança que descobre a força dos seus traços
E descobrimos.
Palavrear é criar.
Tocar na palavra a medo
Devagar
Escrevemo-la
Já não tão devagar.
Descobrimos o som, o ritmo, a quietude.
E não há já o vagar para se esculpir de novo as palavras.
Não, «não nos podemos enganar sobre o sabor das palavras».


Navegamos no mar das palavras
Mas não lhes pertencemos.

Tuesday, August 29, 2006

Quando se regressa da ausência




Tem que haver um bater de porta com estrondo. Dá-se por isso. Um interregno é uma paragem. E uma paragem tem que ser assinalada no seu regresso. Sei que me dás razão. Voltar com a força das marés é isso mesmo. E eu nunca deixo em branco o regresso de um amigo.
...
«Livre! És o último homem livre. Foi com as tuas próprias mãos, com o teu próprio sangue, que dobraste as grades que te mantinham cativo. És livre porque te reinventaste. E estás vivo. Oh! Como estás vivo esta noite… Mais vivo que a própria vida! Bem louco aquele que ainda fica vivo.Tu és esse louco que voa cada dia mais alto em busca do infinito, e de um pouco mais, que o infinito não te basta. E vês o mundo tão pequeno lá em baixo … Onde não se voa, somente se rasteja. Seis biliões de rastejantes! E para quê? Nada! Nada em 6 biliões de vezes. Um pouco de loucura. Como sabe bem um pouco de loucura. Mas já não existe substância nos homens…
Os homens estão ocos, tão ocos que já não sabem ser loucos, quando ser louco é só ser humano. Onde termina a razão começa o Homem. E a vida dos homens é um relógio de corda. Um longo tic-tac… com o paladar de uma sobremesa que já enjoaram. A tua vida é uma tempestade.E tu, um navegador que rema e avança, em busca de outros mundos que não os nossos.»


Como sabe bem um pouco de loucura.
Sacudir as mentalidades e regressar.
Reconheces-te?
Um abraço querido amigo Gonçalo.

Wednesday, August 16, 2006

Encontro-te


Foto: Virlene Damásio em «Um outro Olhar»


muitas vezes a brincar com as palavras. És doce. De uma doçura que nos toca. Ainda há dias te perguntei sobre o momento em que nos cruzámos. E tu lembravas perfeitamente, esse momento. Gosto de te ler, em silêncio, imagino-te a pegares em cada palavra e vejo o que fazes com elas. Encontrei estas, deixadas, como de costume, por cima de uma tela branca, sublimes, perfeitas, tão perfeitas que nem te dás conta.

«Um descampado
Árvore corroída pelo tempo, vento
Um nada.
Saberei eu descrever em traços um dia?
Dar vida a uma folha em branco
A um tronco ingreme que o tempo levou?

Ah se soubesse que a vida que habita em mim
O tempo levou,
Como as folhas ...
da mangueira desfolhada do pasto
Onde corria nos dias alegres
A cantar com as borboletas.

A árvore morreu.
Eu cresci e 'entristeci'
E brinco de desenhar folhas caídas,
campos secos

E brinco de desenhar »

Vivis, Julho 2006


Friday, August 11, 2006

HOJE




Antes de me deitar
Rasgo o silêncio do mar.

Rasgo a pele ao meio
Tenho a sede do sal
Tenho na pele o sabor
E na alma, a dor.


Hoje
Antes de me deitar
Atiro a minha alma ao mar

e só nesse momento decido
se regresso de alma vazia
Ou se a salvo no último momento


de vida.

Thursday, August 03, 2006

O dia depois da sombra




Fecham-se os estores das janelas
quando anunciam a minha entrada.
Cerra-se a passagem à iluminação do mundo,
para que possa existir.

Olha,
Pega-me ao colo
para que o sol me aqueça.
Adormeço.
Sei que não faz mal.
Sei que as sombras habitam no coração dos homens.
É lá que me afundo.
Sei que o amor se pronuncia sobre a relva
sussurrado
por baixo dos ramos densos de uma árvore.
Abraça-me
para não me queimar.
Sei que se chora em dias de Verão
que se escapam as lágrimas
se dissolvem
se confundem
se afogam
nas gotas dos risos das águas escaldantes.
O colo.
Para que o sol me aqueça sem me tocar.
A sombra é o jogo das persianas ao fundo.
Os meus passos avançam
Dirijo-me ao recanto da ausência da luz.
Sem pressa.
Estou protegida.
O Sol espia, sorridente, a fuga do corpo quente.
Deixa-se estar
à distância.
Não me toca a pele.
Mas eu sinto o calor na ternura
dos que me fecham as persianas
ou me abrem sombrinhas.

É como se me vestisse de Sol todos os dias.


Autor: Claudia Galhós

Saturday, July 15, 2006

No parapeito do Tempo



Ficou debruçado no parapeito de pedra, contemplando as suas mãos. A pele ressequida pelo tempo, áspera e agora suada pelo calor da noite. As veias salientes que mais pareciam rebentar a qualquer momento. Cá em baixo as vozes abafadas das mulheres debaixo do alpendre. Sempre se questionara sobre que falariam as mulheres noite fora. A noite estava quente. Muito quente. Nem uma brisa sequer. Num gesto repentino fechou as portadas num estrondo e sentou o corpo cansado no velho sofá.
Estendeu a mão e abriu o livro de memórias.
A luz dos postes passava pelas brechas das janelas e encandeava o pó que se libertava a custo no desfolhar de cada página. Era sempre a mesma coisa. Recostou-se e fechou os olhos. Num gesto lento, olhou de novo aquelas imagens. No princípio, o sobrolho carregado, uma a uma, as memórias, as recordações das pequenas notas escritas à mão com uma letra cuidada de outros tempos.
As datas.
Os locais.
As viagens.

Fechava os olhos e viajava no tempo. Acabava a sorrir ao que o passado lhe trazia. Era capaz de ficar horas naquilo. Entregar-se às memórias de uma vida. Podia jurar que vivia de alma cheia por tudo o que foi colhendo ao longo da vida, não fossem as horas passar tão depressa naquele estúpido relógio de cuco na parede da sala e seriam estes os seus melhores momentos em noites quentes como esta.
Levantava-se, pousava o livro sobre a mesa devagar.
Entrava no quarto no mais absoluto silêncio. Sempre o mesmo hábito. Sentia-lhe a respiração. Nunca entendeu porque raio lhe sentia a respiração antes de um beijo de boas noites. Uma necessidade ávida de a ouvir respirar, pausadamente.
Adormecer em paz.
Era o que pedia a Deus todas as noites.

Tuesday, June 06, 2006

Quem não tem medo do escuro




cerre os olhos à luz.
Quem não tem medo da dor, não encerre a vida ao silêncio.



É o que faço sempre quando atravesso a correr o cimento do meu bairro. Corro na distância dos candeeiros que iluminam o fim da rua mas nem por isso os alcanço mais depressa. Sento-me sempre no mesmo banco de madeira bem no meio do largo, rodeado por todos os postes que iluminam a noite. São bolas de vidro brancas e sujas. Algumas já partidas. Encosto a cabeça no vazio e encontro todos os meus vizinhos já em casa. Todas as janelas iluminadas. Hora de ponta familiar. Vejo as sombras das mulheres nas janelas, as persianas corridas com raios de luz ténue, as crianças brincam às rodas e esperam ansiosas pelo jantar.


É tarde.

Há uma janela já corrida. Sem luz ou raios mirabolantes. Alguém dorme já. E sonha. Sonhos ágeis, tão ágeis que lembram nuvens de algodão. Tocáveis. Quem tem medo dos sonhos?

Chegam os putos com a bola e despertam-me. Foco de novo a janela fechada. A imaginação tem asas cintilantes e eu danço no vento quando me sento fora de horas naquele banco de madeira.

Quem tem medo da solidão?
Continuo a olhar para a janela de persianas corridas, como se algo me dissesse que aquela janela deveria estar aberta, iluminada e com sinais de vida.


Sonhos partilhados, Alex &
Virlene

Monday, May 29, 2006

Anoitece




As águas inquietam-me.
Anoitece no mar, nos contornos do horizonte
Deliciosamente recortado.
Fecho os olhos na voz do silêncio
Onde o poema também dorme.
Sem principio
Nem fim.
Não há rima onde o poeta dorme
Nem o brilho das estrelas

Nas cinzas que caem ao mar
Nem navios, nem homens
Nem horas no tempo
Nem bandeiras ao vento.

Erguem-se as velas ao cruzar da noite
No caminho traçado à luz das estrelas
Nos brancos esbatidos ao luar
Os papeis tocam-se no vento
Na fome
Na sede.


Nem navios
Nem homens
Nem horas no tempo.

Sunday, May 28, 2006

Fora de tempo


2.Março.2006



Tenho dias em que pego nas palavras
Lanço-as ao vento
Solto as amarras
Atiro ao mar a vontade
Mato o desejo e escondo a saudade.


Tenho dias em que as embrulho às avessas,
Nem no meu pensamento
Quanto mais dispersas
Presas num momento.


Faço delas o que quero,
Tanto as calo como as grito
Tanto as quero como não quero.
Pego numa ou outra ao acaso
E ergo uma montanha
Entre o presente e o passado.

Misturo e baralho as palavras
Separo-as ao sabor
Não quero nem saber,
Eu nem gosto de poemas
Terminados em amor!

Abro de novo o horizonte
E vejo a lua pela manhã
Debruço-me no meu sentido
Faço nova tentativa na ânsia de acertar
Quero lá saber de Saudade
Eu nem gosto de poemas
Terminados em liberdade.

Levo na frente a teimosia
De costas voltadas à poesia
E ando assim dia após dia
Encontro no caminho de volta
Os rascunhos de uma vida.

Remexo em gavetas
Como quem remexe o passado
E atiro com tudo pelo ar.


Continuo na minha,
Eu nem gosto de poemas terminados em ar!


Saturday, May 27, 2006

Estrada fora


Foto: Vasco Gil
28.Novembro.2005



Não me perguntes onde vamos.
Enquanto houver céu, enquanto houver estrada, vamos.
Não me perguntes quanto tempo demoramos.
Quando chegarmos, saberás.
Não me peças a noite e o dia.
Não me perguntes quem vem primeiro.
Ao amanhecer dir-te-ei se é dia
Ao anoitecer vou somente dormir nos teus braços,
Estrada fora, noite dentro.


De olhos fechados


Foto: floyd
24.Novembro.2005




Há janelas de onde não se vê o mar.
Se o mundo é um moinho não bastaria pintá-lo de azul igual?
Se gira e não pára, nem sequer num sorriso
Pintá-lo-ei eu mesma em formas desiguais
Que giram pelo mundo tal como o moinho.


Não bastaria caminhar sem sentido
Faria os dias em formas e cores
As horas sem tempo nem ponteiros
Encontraria o azul na distância de um olhar
Mas não, não vejo o mar!


Se fechar os olhos ao vento
Mesmo que apenas por um momento
Vejo em mós o meu pensamento
Ergo então os sonhos caídos
E sim, agora vejo o mar.
O que faço então da tela onde o azul não sabe a sal?
Onde as ondas batem em silêncio?



Misturo o azul na água
E levo o céu ao mar.


Alguém


Foto: AVSousa «Alguém»
04.Novembro.2005



Alguém me disse um dia que a vida é Poesia.
Sentado, tranquilo de palavras em riste
espera, pedi-te: não te mexas, assim.
Registei-te em momento e jamais esqueci.
Não são lágrimas o que vês,
Não é tristeza que há em mim.
É poesia!
Tantas vezes me ensinaste que aprendi
Ser mulher, filha ou neta não tem diferença
Sim, eu sei, percebi.
O meu passo de confiança.
Tantas as vezes te procurava
A ânsia de te ouvir.
O meu sorriso, o meu abraço,
os meus olhos são Poesia!
É minha por uma vida a tua vida.
Deixa, sente, ouve-me até ser dia.
Mesmo os meus sonhos são Poesia.
Vês a minha pele? os meus olhos cansados?
A voz sumida?
Sim sim sim sim. Respondi.


Sou um vagabundo, um vadio da poesia
O meu corpo envelhecido,
a minha pele em rugas
Vagueio à noite pelo frio, pelas ruas
faço do cartão os meus livros.
Não os tenho, mas preciso.
A memória é triste,
a saudade pelos meus
Isso é sentido!


Pergunta-me então: e a Poesia?
Está dentro de mim!
Dentro de ti?


Já as lágrimas me corriam.
Explica-me, diz-me, conta-me,
a Poesia não se guarda assim!
Guarda sim. Sorrio ao passar da gente
Todas as manhãs, todos os dias
Esqueço as saudades, a minha alma carente
Peço um olhar, peço pão
Mas não peço a Poesia!


Essa,
Ó essa está dentro de mim.


Esta noite


29.Outubro.2005



Esta noite contei as horas
Os segundos, os minutos, as memórias.
Contei as horas na noite
Ouvi os passos de gente,
Palavras gritadas no silêncio
Vi as sombras, os reflexos
Os fragmentos nocturnos.
Gente que chegava, gente que partia
Fiquei à janela e vi os sonhos dos outros
E fiquei assim até ser dia.

Esta noite ouvi histórias sem fim
Tantas histórias me contavas
Tantas estradas cruzadas
Tantas palavras desencontradas.



Fiquei acordada,
e ouvi os sonhos dos outros.

Friday, May 26, 2006

Recital


19.Outubro.2005


Revejo-me num eco pronunciado.
Baixo a intensidade da luz porque me ardem os olhos. Estamos ansiosos, aguardando-te. As nossas mãos torcidas, tal zinco no telhado, neste ambiente ténue onde apenas ressaltam os tons quentes das paredes.
Nuas.
De pé, recitas as tuas palavras como quem ousa pela última vez. Os teus olhos não procuram os nossos sequer. Olhas o fundo da sala, pressentindo o efeito que causas em nós. Escutamos em silêncio as tuas palavras entrelaçadas, pausadas. Os tons, altos, baixos, sussurados, quase calados.
A tua expressão séria, fria, quente, terna ou vazia

Consoante.

Nos passos cada vez mais vincados
Solbressaltas-nos, despertas-nos e
fico então retida em ti, aguardo
Retenho-me no dia, e aguardo
Escutamos o dom de um recital, onde o grito é poesia.

O grito é poesia.

Aconchegada num veludo imenso
Embrulhada em papel suave
Interrompida abruptamente num momento
Escondida, amarrotada, armadilhada, transpirada
Dita devagar, amaciada, sensual
Viva, forte, agressiva, tempestual
A expressão facial do que é dito sem palavras.

Pouso o copo e respiro aliviada pelo fim. Esgotada
Sinto o corpo fora de mim
Seria capaz, juro, de andar pela água
Tal a leveza do ar
Antecipo-me na palavra
E aplaudo-te, de pé
Sentidamente.

Que seja, tal como disseste um dia que seria
Tal o mar espelha a luz do dia
Tal o mar espelha a minha vontade.
Que saudade
De um Recital de poesia!

Thursday, May 25, 2006

Retalhos


29.Setembro.2005



Os retalhos de uma vida,
São memórias em resguardo, em velhas mantas de retalhos
São memórias vivas adormecidas, são palavras aos bocados
As memórias que guardámos porque não as soubemos viver
São a voz de um passado que lançamos ao mar.


Os retalhos de uma vida, são as peças que ficaram por recortar
Tal um puzzle por montar
É preciso acreditar no amanhã e no amor
Porque se a fé move montanhas
Memórias de mãos atadas, apenas nos dão a cor.


Linear


21.Setembro.2005



Adormecido o sentido das palavras
Dormente, o significado aparente
Sente.
Doem as veias no sangue, o sangue nas veias
A alma que aperta, na saudade da descoberta
Não há silêncio que me abrande
Não há tempo que me lembre
História, que me encante.
Arde, queima
Sente.

Um olhar bastaria, uma hora no tempo
Para te dar num só dia, o que retém o momento.

A voz cala
Tarda
Numa palavra descontrolada
Estrangulada pelo tempo.
O que chega é demais
Fora de horas, e que mais?

Se no dito por não dito
Se aproxima um capítulo
E quem cala?
A palavra ou o mito?

As palavras, as palavras
E as portas fora de horas.


Wednesday, May 24, 2006

Não tenhas medo


12.Setembro.2005



Não me canso de o ver, muito menos de o sentir
O abandono nas horas a fio
A pele arroxeada já num tom frio.
Não, não sinto frio.
Não, não sinto medo.
É a paz que não tenho
Um silêncio magnífico.

Um veludo grandeoso que o envolve
É a pele em delirio, pela água que a escorre.
Não sei ao certo desde quando
Desde sempre, me lembro.
Desde sempre.

São as correntes traçadas na palma da minha mão
Sei que é cedo, ainda
Ser tua a minha paixão.

Teremos tempo, sem horas marcadas
Hei-de um dia levar-te comigo, de mãos dadas,
Até ao fundo, e tudo nele
Irás então descobrir
Vou fazer-te parar, um instante, um segundo
E quando entrares no meu mundo
Irás saber o que achavas ser impossível sentir.

Sei que é algo por explicar
E quando acontecer,
Se nos apetecer voltar, voltamos
Se nos apetecer ficar, ficamos.


Ainda é cedo. Eu sei.


Cruzadas, as palavras


12.Setembro.2005



Cruzadas, as vidas
Cruzados, os sentimentos.
A vida é feita de momentos
De pequenos momentos
De palavras dispersas, cruzadas assim
Entre ti, entre mim.

Cruzamos palavras, verdade que sim.
Pergunto então: e emoções cruzamos?

Ingenuidade


26.Agosto.2005



Se quiseres fala.
Se não quiseres não digas, fica quieto.
Se te apetecer diz,
Não finjas, não se apaga
Não se escreve subtilmente.

Se ainda assim quiseres, fala.
Se não quiseres, esconde, apaga
É que eu não ando superficialmente
As coisas fingidas não têm tempo
São rápidas sabes, e perdem-se num momento.

Se quiseres invento. Queres?
Se quiseres atormento-te.
Queres?
Então cala-te, não tenho medo.

Se quiseres finjo, queres?
São as vezes de confissões
São as formas de desilusões.

Ingénuo é aquele que não vê.



Rumo I


22.Agosto.2005



Espera.
Peço-te.
Não é a tristeza por não te ouvir
Não é tanto a saudade que vou ter
São as histórias por descobrir
É que tenho tanto, ainda, por te dizer
Tanto, ainda, por sentir.
Não vás ainda, peço-te.

Não é somente um mundo desconhecido
São laços que se perdem no tempo
São palavras proferidas sem sentido
Num qualquer momento.

São anos presos a fio
O choro de noite que nos desperta
O aperto que não nos leva
A um rumo sem traço, a parte incerta.

Que me importa a saudade a uma distância assim?
Os teus olhos estão tristes.



Ainda não


04.Agosto.2005


A cantarolar baixinho, a soltar a imaginação
Não percas no tempo as letras que te dei
Vá lá, canta-me uma canção.


Se é silêncio que precisas, se é alma que não tens
Não arrumes a guitarra que eu ainda não acabei.
Deixa solto o piano e toca como ninguém.


Se me cantas a verdade
Me abraças em saudades
Porque não saem os acordes e vives em Liberdade?


Posso anunciar-te ou simplesmente amar-te
Escrever-te ou inspirar-te
Perder-te na razão.
Tenho o tempo que me aguarda no meio desta ansiedade
Vá lá, canta-me uma canção.




Monday, May 22, 2006

Cores ou letras


2.Agosto.2005



Hoje gostava de te pintar
Dizer-te em tela o que não sei dizer-te em palavras
Dizer-te em cores o que não sei escrever
Mostrar-te assim, memórias em mim entrelaçadas.


Gostava de te pintar em tela
Escolher os tons, talvez fortes e quentes
Talvez suaves ou ardentes
Em movimentos bruscos ou ágeis
Misturados como que por magia, numa paleta de cristal.


Hoje, gostava mesmo de te pintar.

Uma dúvida somente


29.Julho.2005



Diz-me o que pensas
Fala-me do que importa
Uma questão apenas de ser ou não
Uma dúvida somente, e então?

Tantas palavras guardaste
E eu em silêncio não as alcanço
E eu em silêncio não as vejo
Diz-me o que realmente importa
Entre juras de faz de conta
Entre memórias
Que se calam.

Escreve de novo o que não sabes dizer
E num momento só, tudo se questiona
Se o amor me toca e me diz o que devo ser
Se o amor me diz o que devo ou não devo escrever.

Não faças de mim cruzes no chão
Não exigas o fim na ténue solução
Na distância da lente focada
Ficam as imagens na terra molhada
Em reflexo de ti onde não habita a palavra.

Explica-me se o meio justifica
Se as palavras magoam
Se o sentimento fica.

Diz-me, assim assim ou mais ou menos
Pode até ser na névoa do silêncio
Mas diz
Diz-me
Se o tempo corre, se um beijo conta
Saudar a manhã porque acordar assim
De olhos fechados e a sorrir
Envaidece a alma
Acalma
Abraça-me apenas e faz-me sentir
Que há a esperança de amanhã
Que o mundo gira, que a terra pára
Num sorriso assim pela manhã.




Na sombra da noite


24.Julho.2005
Foto: floyd




Fosse o dia a luz que te guia
Nesse teu voo alucinado
E quem sabe me atreveria
Seguir-te no tempo
Perder os meus medos
Mas é a noite a tua cúmplice
Onde nem tenho lugar marcado
Fico acordada no alpendre
Vejo a imagem de um momento passado
Na noite o ar húmido e quente
Nas horas estagnado
Onde o fim está já traçado
É a ave que corta o céu
Um mergulho de uma margem em delírio
Asas no vento
Agilidade
Asfalto em névoa, onde cai ferido
Cego voo nocturno
Fragilidade
Numa metáfora sem sentido.

Quem vai agora sentar-se no teu lugar
Dar-me os acordes para a história final
Cantar-me e encantar-me sem refrões ou enganos
Contar-me os minutos, as horas e os anos.


Estrada


01.Julho.2005



Por campos lisos ou estradas desertas
Com o vento simplesmente a passar
Andar na areia, sentir a brisa do mar
Falar, de coisas dispersas.


No tempo, as saudades que sentir
Das memórias que me fazem sorrir.


És capaz de chegar aqui
Assim como quem conta um segredo
E dizeres-me baixinho, o que sentes por mim?


Quero estar contigo
Sem pressa ou atropelo
Sem corridas contra o tempo
Passa as mãos no meu cabelo
Palavra por palavra
Dá-me a mão, passeia comigo
Deixaremos a cidade na porta de entrada.


A léguas de caminho
Chegar junto a ti
E tu a mim
Neste encanto de Paraíso
Perceber que o céu, além de estrelas
É feito de cores assim.

Friday, May 19, 2006

Amarras


27.Junho.2005
Foto: Pepe Lima



Está na hora de soltar amarras
Que é quase como quem diz
Vem devagarinho primeiro
De pés descalços e baixinho
Percorrer algum caminho
Simplesmente traçado a giz.

A rebeldia tem rosto
As letras a paixão.

Se te sentasses ao pé de mim


27.Junho.2005
Foto: floyd


Se te sentasses ao pé de mim
Por um minuto apenas
Se me contasses os teus medos
As tuas histórias sem fim
Quem sabe, os teus segredos
Ensinava-te a andar descalço pelas estrelas.


Deixa o céu brilhar
Deixa o céu abrir
Já te disse mil vezes
Que prender não é sentir
A noite não é dia
O dia não é noite
Enxuga a tua cara
Que as lágrimas acabaram
é talvez a hora
A hora de sair do palco
Que os aplausos já terminaram.


Podiamos juntos descobrir
Como é possível amar assim
Podias até sentir
E o mais certo era saberes
Que tudo tem um fim.


Senta-te aqui ao pé de mim
Sente a brisa do mar
Perde-te, por aí
Porque a melhor parte é voltar.


O que tu não sabes é que as ondas
Te contam coisas de encantar
Te despertam os sentidos
Te fazem a pele arrepiar.


Mas porque raio te lembraste agora
Que há magia ao luar
Mil memórias espalhadas praia fora
Que nunca conseguirás apagar.


Explica-me então essa história
Dos papeis espalhados pelo chão
Porque nem à lua cheia
Alguém te vai dar razão.


Já te ensinei um dia
A viajar sem destino
Se te disse até logo
É porque ainda volto
Porque não finjo o que não sinto.


Thursday, May 18, 2006

Por todos os seus sonhos mal traçados



Nas noites mal dormidas
Venho falar de amor
Por todos os amores não vingados,
Por todas as feridas
que não sabem se vão fechar ou não,
Embora fechem.
Por todos os seus gritos de protestos,
Todos os absurdos que acordaram
A chama do ideal
E por todos os restos das ilusões que não vingaram
Venho falar de amor.
Por todas as barricadas
Pelos quatro cantos do mundo erguidas
Em favor do ideal,
Todas as fantasias mal traçadas
Ao preço às vezes de suas vidas
Venho falar de amor
Que havia em seus mais violentos gestos
E em seus mais vagos sonhos
De um mundo renovado e bom.
Por suas utopias mais sinceras,
Por todas as quimeras,
Todos os manifestos
Ainda os mais violentos e medonhos,
Por seus versos de sonho e amor maior
Venho falar de amor.
Pela sinceridade de seus sonhos,
Suas bandeiras vagas,
Seus mundos novos
E os amores eternos de um instante,
Regados quanta vez a chope,
E quanta vez a sangue.
Agora é tarde pra salvar o mundo,
Cerrar fileiras
E marchar para o rumo do ideal,
A desfraldar bandeiras
Cobertas da poeira do passado
E sempre novas,
Que as bandeiras não salvam:
Só nos salvamos todos juntos, de mãos dadas
Ou vamos todos juntos partilhar as covas.
Dormindo agora
Que as sementes incertas de seus sonhos
Cresçam e tomem forma como um feto
Enquanto aflora
A nova geração que espera
De coração inquieto
Que os sonhos vagos tomem forma e vida
Para que a luz da nova era depois das dores
Seja então concebida.


Julio Costa Netto, 1988
ou Capitão Mário Cuervo



Wednesday, May 17, 2006

Vagarosamente,



detive-me nos atalhos da tua voz, mais encantada pela música que escorria do que dizias do que propriamente pelo significado das palavras concretas. Já te auscultara de longe, numa ansiedade curiosa de vislumbrar para além do rectângulo ofuscante de luz que me trazia as cores da tua alma e os passos dos labirintos sinuosos dos teus estados de ânimo. Desenhara uma imagem, confusamente, com as poucas linhas embaraçadas umas nas outras, como os novelos esquecidos de antigos trabalhos de tricot em que nunca mais pegámos. Pacientemente, então, vamos percorrendo com a linha o desfiar dos nós, no caminho inverso que nos trará de volta a ordem tranquila de um novelo bem enrolado sobre si mesmo, como devem permanecer os mistérios profundos que nos assombram a consciência. Percorri lentamente essa linha invisível até ter o teu desenho na memória, e eis que a tua voz irrompendo nos meus ouvidos mudou tudo, pôs o mundo de pernas para o ar, como um súbito vendaval na pasmaceira solarenga do verão, que levanta aquele vento morno em carícias bruscas na pele e nos sentidos. E que vivos que são os abanões que a alma sofre, como aqueles toldos ao fim da tarde na praia deserta, esquecidos por banhistas distraídos, que dançam energicamente açoitados pelo vento carregado de maresia. Assim foi o meu despertar, líquido, salgado, encharcado de cheiros e sabores marinhos, pela tua voz. Tão suave. Tão nova. Viva e ondulante, como a serpente do luar no azul nocturno das águas.
escrito nas estrelas por O Outro Lado da Lua.

Tuesday, May 16, 2006

No fundo



"No fundo o que é enlouquecer? É sair de uma determinada norma, não é? É preciso muita coragem para se ser realmente louco." A. Lobo Antunes

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