De um livro

«Caminho sobre um chão de tijoleira de cor branca salpicada de cinzento. Como o meu cabelo, e o cabelo da maioria das pessoas que aqui estão, embora esta manhã seja eu o único no átrio da entrada. Os outros ainda estão nos seus quartos, sozinhos, apenas acompanhados pela televisão mas, como eu, já estão acostumados a isso. Se lhe derem tempo suficiente, uma pessoa habitua-se a tudo.
Oiço sons abafados de choro à distância, e sei exactamente de quem são. As enfermeiras vêem-me então, sorrimos uns para os outros e trocamos cumprimentos. São minhas amigas e conversamos muitas vezes, mas tenho a certeza de que ficam a magicar a meu respeito. "lá vai ele outra vez", escuto, "espero que corra bem". Um minuto mais tarde chego ao quarto. A porta mantém-se aberta para mim, como acontece usualmente. Há mais duas outras pessoas lá dentro, e também me sorriem quando entro. "Bom dia", dizem. Falamos por cima do som do choro durante um minuto ou mais. Parecem não dar por ele. Tornaram-se-lhe insensíveis. Também eu estou a tornar-me insensível, mas por outros motivos.
Depois sento-me na cadeira que acabou por adquirir a minha forma. Já estão a acabar. Ela já tem as roupas vestidas mas continua o choro. Tornar-se-á mais mansinho depois de elas partirem, eu sei. A excitação da manhã perturba-a sempre, e hoje não é excepção. Por fim, a cortina é aberta e elas saem. Sento-me só por um segundo e fico a observá-la mas ela não me devolve o olhar. Compreendo. Não sabe quem sou. Para ela sou um estranho. De óculos postos, tiro do bolso uma lente de aumentar. Poiso-a sobre a mesa por um instante enquanto abro o livro de apontamentos. Há sempre um momento, imediatamente antes de começar a ler a história, em que a mente se me perturba, e pergunto-me, "irá acontecer hoje?" É a possibilidade que me faz continuar e não a certeza.
Ficamos sentados em silêncio a observar o mundo à nossa volta. Levou-nos uma vida a aprender isto. Parece que só os velhos são capazes de ficar sentados um ao lado do outro sem dizerem nada e, ainda assim, satisfeitos. Os jovens, activos e impacientes, têm sempre que quebrar o silêncio. É um desperdício, porque o silêncio é puro. O silêncio é sagrado. Une as pessoas porque só os que se dão bem uns com os outros se podem sentar juntos sem falar. É este o grande paradoxo.
Todas as manhãs ele lê para ela, de um caderno desbotado pelo tempo.»
De vez em quando ela interrompe-o.
- Quem és tu? Eu conheço-te não conheço?
- Quem és tu? Eu conheço-te não conheço?


13 Comments:
Alex...
Depois desta leitura, só me apetece perguntar:
Qual é o livro?
Deixo-te,
Com um Beijo meu.
Como saio daqui a pensar...
Nem imaginas como me tocou fundo.
Bem fundo.
bjgrande
Quando um livro oferece esta força sugestiva e interventiva na vida de alguém é porque o livro é de uma sensibilidade encantadora. O tempo que desbotara o caderno assiste enternecido ao seu correr.
Gostei do teu blogue.
Vou voltar com mais tempo.
camilo.
Que relato, Alex!
Parabéns!
Um amor infinito, que se prolonga muito para além da morte física.
Peguei num livro na semana passada, para ler algo.Nas primeiras linhas apercebi-me que era este.
Chorei copiosamente cada linha... mas ensina-nos muito, não é?
Beijo,S
Associei a ternura deste post a este som, na voz de Bethânia.
Para Alex
http://catinu.paginas.sapo.pt/Music/prata.wav
Passei...
Uma vez mais...
Procurando sinais de ti...
Espero que estejas bem.
Um Beijo meu.
claro que conheces...
beijo vagabundo
Pelo mistério proposto pelo silencio, o pensar.
Cadinho RoCo
Para vós amigos… de reflexão,
uma natividade de prosperarão
e um ano novo também,
de rostos risonhos,
com realizações de vossos sonhos…
Num vislumbrar de um novo mundo
poetizar a paz e harmonia
cantando todos de mãos dadas
na sintonia da alegria.
Um Bom Natal.
Fico sem palavras...
Kiss
ah! tenho um mimo para ti no meu sítio
De vez em quando ela interrompe-o.
- Quem és tu? Eu conheço-te não conheço?
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Na verdade, não conheces. É que nem tudo o que se vê, é.
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Fica bem.
Felicidades.
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