Tuesday, November 06, 2007

De um livro



«Caminho sobre um chão de tijoleira de cor branca salpicada de cinzento. Como o meu cabelo, e o cabelo da maioria das pessoas que aqui estão, embora esta manhã seja eu o único no átrio da entrada. Os outros ainda estão nos seus quartos, sozinhos, apenas acompanhados pela televisão mas, como eu, já estão acostumados a isso. Se lhe derem tempo suficiente, uma pessoa habitua-se a tudo.


Oiço sons abafados de choro à distância, e sei exactamente de quem são. As enfermeiras vêem-me então, sorrimos uns para os outros e trocamos cumprimentos. São minhas amigas e conversamos muitas vezes, mas tenho a certeza de que ficam a magicar a meu respeito. "lá vai ele outra vez", escuto, "espero que corra bem". Um minuto mais tarde chego ao quarto. A porta mantém-se aberta para mim, como acontece usualmente. Há mais duas outras pessoas lá dentro, e também me sorriem quando entro. "Bom dia", dizem. Falamos por cima do som do choro durante um minuto ou mais. Parecem não dar por ele. Tornaram-se-lhe insensíveis. Também eu estou a tornar-me insensível, mas por outros motivos.


Depois sento-me na cadeira que acabou por adquirir a minha forma. Já estão a acabar. Ela já tem as roupas vestidas mas continua o choro. Tornar-se-á mais mansinho depois de elas partirem, eu sei. A excitação da manhã perturba-a sempre, e hoje não é excepção. Por fim, a cortina é aberta e elas saem. Sento-me só por um segundo e fico a observá-la mas ela não me devolve o olhar. Compreendo. Não sabe quem sou. Para ela sou um estranho. De óculos postos, tiro do bolso uma lente de aumentar. Poiso-a sobre a mesa por um instante enquanto abro o livro de apontamentos. Há sempre um momento, imediatamente antes de começar a ler a história, em que a mente se me perturba, e pergunto-me, "irá acontecer hoje?" É a possibilidade que me faz continuar e não a certeza.


Ficamos sentados em silêncio a observar o mundo à nossa volta. Levou-nos uma vida a aprender isto. Parece que só os velhos são capazes de ficar sentados um ao lado do outro sem dizerem nada e, ainda assim, satisfeitos. Os jovens, activos e impacientes, têm sempre que quebrar o silêncio. É um desperdício, porque o silêncio é puro. O silêncio é sagrado. Une as pessoas porque só os que se dão bem uns com os outros se podem sentar juntos sem falar. É este o grande paradoxo.


Todas as manhãs ele lê para ela, de um caderno desbotado pelo tempo.»

De vez em quando ela interrompe-o.
- Quem és tu? Eu conheço-te não conheço?

13 Comments:

Blogger Brain said...

Alex...

Depois desta leitura, só me apetece perguntar:

Qual é o livro?

Deixo-te,
Com um Beijo meu.

6:38 PM  
Blogger GarçaReal said...

Como saio daqui a pensar...

Nem imaginas como me tocou fundo.
Bem fundo.

bjgrande

7:00 PM  
Blogger Rui Caetano said...

Quando um livro oferece esta força sugestiva e interventiva na vida de alguém é porque o livro é de uma sensibilidade encantadora. O tempo que desbotara o caderno assiste enternecido ao seu correr.

12:10 AM  
Blogger Camilo said...

Gostei do teu blogue.
Vou voltar com mais tempo.
camilo.

11:49 PM  
Blogger a.filoxera said...

Que relato, Alex!
Parabéns!

2:26 PM  
Blogger Eu said...

Um amor infinito, que se prolonga muito para além da morte física.

Peguei num livro na semana passada, para ler algo.Nas primeiras linhas apercebi-me que era este.

Chorei copiosamente cada linha... mas ensina-nos muito, não é?

Beijo,S

9:36 PM  
Blogger Rhiannon said...

Associei a ternura deste post a este som, na voz de Bethânia.
Para Alex
http://catinu.paginas.sapo.pt/Music/prata.wav

12:40 AM  
Blogger Brain said...

Passei...
Uma vez mais...
Procurando sinais de ti...

Espero que estejas bem.

Um Beijo meu.

2:58 PM  
Blogger OLHAR VAGABUNDO said...

claro que conheces...

beijo vagabundo

7:45 PM  
Blogger Cadinho RoCo said...

Pelo mistério proposto pelo silencio, o pensar.
Cadinho RoCo

2:26 PM  
Blogger manzas said...

Para vós amigos… de reflexão,
uma natividade de prosperarão
e um ano novo também,
de rostos risonhos,
com realizações de vossos sonhos…
Num vislumbrar de um novo mundo
poetizar a paz e harmonia
cantando todos de mãos dadas
na sintonia da alegria.

Um Bom Natal.

2:08 PM  
Blogger Seastar_ Hannanur said...

Fico sem palavras...

Kiss

ah! tenho um mimo para ti no meu sítio

5:23 PM  
Blogger DE-PROPOSITO said...

De vez em quando ela interrompe-o.
- Quem és tu? Eu conheço-te não conheço?
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Na verdade, não conheces. É que nem tudo o que se vê, é.
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Fica bem.
Felicidades.

2:56 PM  

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